segunda-feira, 24 de março de 2008

Descompasso

Ecoa
voa
amortece
faz da pele um atabaque
se som não produz
faz-se o eco do silêncio
toca, toque, tic-tac
o tempo é o instante da batida
respira
suspira...
adormece

segunda-feira, 17 de março de 2008

Cacos

Andava descansada pelos corredores do casarão a procura do nada que habitava aquele lugar. Experimentava a umidade fria do assoalho gasto nos pés descalços e me esquivava dos vultos e das vozes ocultas daquele silêncio amedrontador, quando senti a dor fina de algo a cortar-me os pés. Eram cacos. Havia muitos deles espalhados pelo chão. Abaixei-me para ver se o corte era profundo e percebi que os cacos refletiam minha expressão de dor. Quis saber de onde vinham aqueles pequenos restos de algo despedaçado que refletiam o pouco de luz que ainda entrava pelas frestas das janelas.
Seguia cuidadosamente a trilha de estrelas afiadas que se formou no assoalho e, agora, o nada não precisava mais ser encontrado. Havia algo mais urgente. O que se despedaçara ainda existia naqueles fragmentos e talvez aqueles vultos sombrios tivessem esbarrado no que outrora foi e não era mais. Ou as vozes secas e agudas do silêncio poderiam ter tornado frágil o que parecia ter sido um espelho altivo.
Os cacos me levaram a uma sala ampla e vazia, só havia nela um espelho ou o que lhe restara. Aproximei-me e senti minha respiração ser alterada pelo susto de ver que ali estava paralisado o último movimento que fiz ao entrar no casarão. Não entendi como um espelho capturara o tempo como uma fotografia. Mas aquele espelho estava nitidamente alterado. Fugia de sua própria existência.
Como se voltasse de um transe, olho o espelho inerte e tento movimentá-lo. Mas meus movimentos não o animam e percebo que o espelho está morto... Morreu de tédio. Não há mais para onde voltar, não há em que se ver refletido... O espelho morreu. Foi-se. Em sua lápide reluzente estará escrito: “aqui jaz um espelho que pouco se teve e pouco se viu. Não conheceu mais que o reflexo de outros, não conheceu a si mesmo. Não pôde olhar para si... Talvez por isso tenha sucumbido”. A quem terá pertencido este espelho, agora, opaco, frio e estático... Despedaçado? Ele quis capturar meus movimentos, numa tentativa sôfrega de se manter vivo. Mas seu último suspiro foi um feixe de luz fria e cortante... Cegou-me.